Universos de Mim

 

Como num filme

 
Andei num mundo paralelo a mim
 
Um mundo onde me perdi
 
Em voltas e voltas
 
Que nunca mais reconheci
 
Sem o sentido que me dá o norte
 
Abandonei-me à minha sorte
 
Em momentos
 
Tive medo de não poder voltar
 
Perdida que estava no labirinto
 
Do meu próprio estar
 
Mas não podia ficar
 
Perdida para sempre nesse mundo não meu
 
Não o queria, não o reconhecia
 
No universo que sou eu…
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Diz-me, Amor, como Te Sou Querida

Dize-me, amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.

Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!

Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem turnura,
Agonia sem fé dum moribundo,

Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, amor, toda a frescura
Das cristalinas águas da montanha!

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Florbela Espanca, in “A Mensageira das Violetas”

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Eternamente


Escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro.
E ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida,
nós todo o mês de Março nos arrastámos na despedida,
como os caranguejos nas maré vazia.
Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços,
fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios,
plantei um pomar com cheiro a Damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma árvore para olhar as estrelas no céu,
um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite,
abóbadas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitectos
e até as teias de aranha suspensas no tecto, como se vigiassem a passagem do tempo.
Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu.
Sozinhos, eu e a aranha pendurada na sua teia,
contemplámo-nos longamente, como quem se descobre,
como quem se recolhe, como quem se esconde.
Foi assim que vi desfilar o tempo, as paredes escurecendo,
um pó de tijolo pousando entre as páginas dos mesmo livros que fui lendo,
repetidamente.
Como explicar-te como tudo isto se te tornou alheio,
como tudo te pareceria agora estranho,
como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso?
E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone.
Veio a seguir Abril e depois o Verão.
Vi nascer a fios da tremocilha e das buganvílias,
vi rebentar o azul dos jacarandás em Junho,
vi noites de lua cheia em que todos os animais nocturnos se chamavam rãs,
corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade.
E já nada disto, juro, era teu.
E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre,
como um rio que corre ininterruptamente para o mar,
por mais que façam para o deter.
Sabes, quem não acredita em Deus,
acredita nestas coisas, que tem como evidentes.
Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos;
acredita na integridade da água, do vento, das estrelas.
Eu acredito na continuidade das coisas que amamos,
acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes parámos,
para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos,
para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa,
para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas
em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido.
Nisto eu acredito:
na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
É a tua voz ouço-a agora, vinda de longe,
como o som do mar imaginado dentro de um búzio.
Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias,
num mar de Setembro, com o cheiro a algas e a iodo.
E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.

Para Ti

Para Ti

*♥*

Foi para ti

que desfolhei a chuva

para ti soltei o perfume da terra

toquei no nada

e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras

e todas me faltaram

no minuto em que talhei

o sabor do sempre

Para ti dei voz

às minhas mãos

abri os gomos do tempo

assaltei o mundo

e pensei que tudo estava em nós

nesse doce engano

de tudo sermos donos

sem nada termos

simplesmente porque era de noite

e não dormíamos

eu descia em teu peito

para me procurar

e antes que a escuridão

nos cingisse a cintura

ficávamos nos olhos

vivendo de um só

amando de uma só vida.

*♥*
Mia Couto

Às Vezes

Às vezes é preciso aprender a perder

A ouvir e não responder

A falar sem nada dizer

A esconder o que mais queremos mostrar

Às vezes é preciso partir antes do tempo

Dizer aquilo que mais se teme

Arrumar a cabeça e limpar a alma

Às vezes mais vale desistir que insistir

Esquecer do que querer

Às vezes é preciso apagar a memória

Sem medo de a perder para sempre.

(Autora do poema: Minha amiga Anna)

http://coisasdemim-anna.blogspot.com/

Queria aprender a voar,
para onde não houvesse tristeza.

Fosse sob a luz do sol ou da lua,
ou o fundo do mar.

Queria encontrar a alegria..

Esforço-me para não me entregar
à tristeza que trago no coração,
o meu olhar humedece a minha face.

Eu queria voar e no mundo da fantasia
quem sabe um dia ser feliz e não me lembrar
De que viver às vezes dói.

Queria…

Libertar-me de alguns pensamentos
Que me corroem a alma.

Para então saber viver sem chorar,

Não o choro exposto,
Mas o choro da minha alma.

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras

e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!

Era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!

E eu acreditava!

Acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,

no tempo em que o teu corpo era um aquário,

no tempo em que os teus olhos

eram peixes verdes.

Hoje são apenas os teus olhos.

É pouco, mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor…

já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza

de que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.

Dentro de ti

Não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

“Eugénio de Andrade”